sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

O pouco que sobrou

"Eu não sei por onde foi. Só resta eu me entregar. Cansei de procurar o pouco que sobrou. Eu tinha algum amor. Eu era bem melhor! Mas tudo deu um nó e a vida se perdeu. Se existe Deus em agonia, manda essa cavalaria, que hoje a fé me abandonou". (O Pouco que Sobrou - Los Hermanos)
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Deus,

Estou escrevendo para lhe dizer que acho o senhor um grande egoísta que só pensa em si mesmo! Amar a Deus sobre todas as coisas?! Que tal começarmos a investir numa relação mais recíproca? Que tal começar a me ouvir um pouquinho mais e provar que também me ama? Já há algum tempo me sinto bastante sozinho... um e outro dizem que o senhor está comigo e que sempre nos acompanha, mas, sinceramente? Não sei se o senhor se perdeu aí pelo meio do caminho (o que eu entendo perfeitamente, porque também vivo me perdendo por aí, confundindo ruas... é mesmo muito complicado andar nessa cidade), não tenho sentido sua presença ao meu lado... nem na frente, nem atrás. Não sei se já está na hora de trocar os meus óculos, mas... não o tenho visto, não o tenho sentido. Já faz tempo que tenho pedido que me ajude a não ser tão só, a me dar uma família, mas o senhor parece não conseguir me ouvir. Parece até minha avó! Não escuta bem, coitada! Problema sério de audição... Assim que encontrarmos um bom médico que a ajude, indico para o senhor, pode deixar!

Quero lembrá-lo que o senhor também teve uma família... a dona Maria, o seu José. Já até ouvi dizer que teve um rolo lá com a dona Maria Madalena (seu sapeca!). Se até você precisou de uma, por que eu não posso ter a minha?! O senhor sempre andou por aí pregando esse negócio de amor... e, como se não bastasse eu não ter quase nada e ninguém, você ainda leva quem mais me amava! Que papelão, em! Maior sacanagem isso. Fica incentivando as pessoas a seguirem esses seus mandamentos... podia pelo menos deixar que as coisas nos permitissem seguí-los, não acha? Bem, seja sincero, você realmente pensa que eu adoro “desejar” a mulher do próximo”? Me dá a minha própria que eu não olho para mais ninguém! Mas não... eu peço, peço, peço e o que acontece? Vem outra mulher de outro próximo para cima de mim! E aí fudeu! O senhor não manda uma só para mim e eu acabo burlando outro mandamento... vou lá e tento “furtar” a tal fulana! Mas sou tão cagado de urubu, que nem isso eu consigo. Eu fico lá, furtando com a melhor das minhas intenções, sabendo que a tal mulher do próximo não ama taaaanto assim esse próximo, senão, não estaria comigo. Ou estou mentindo (juro que não é “falso testemunho”!)? Mas ela insiste em ficar com os dois. Nessa putaria sem fim. Mas aí, se eu arrumo alguém, vem outrozinho casado, me rouba a dita-cuja na maior cara de pau e não acontece nada! Vidinha esquisita essa, em!

Eu tento! Se o senhor vê tudo e está em todo lugar, como dizem por aí... aquele papo de onipresente, onipotente (resumindo: fodão), sabe que não faço por mal. Que só estou nessa vida por falta de opção. Como escolher o azul, se só lhe dão como opção o rosa e o rosa? E olha que eu nem lhe dou muito trabalho, em! Nunca me ajoelhei para lhe pedir fortunas... nenhum carro mega-ultra-power-foda do ano e quinze mil viagens estrangeiras em hotéis mil estrelas. Não quero nada disso! (E nem se dê o trabalho, caso o senhor dê uma de louco, comece a escutar e querer atender apenas esta última frase).

Eu só não quero ser sozinho. Me sentir sozinho. Dormir e acordar dando boa noite e bom dia para as paredes. Contar às plantinhas da sala como foi incrível o meu dia medíocre! Eu só queria um pouco de alguma coisa nessa vida cheia de nada. Companhia, vozes no meu ouvido (Não vai começar a querer dar uma de bonzinho e me tornar esquizofrênico ao ler isso, em!), alguém que se importe comigo e que eu me preocupe também. Alguém para eu cuidar que não faça fotossíntese! Será que isso é pedir muito? Diz aí! Tanta gente por aí pedindo para morto ressuscitar, para se curarem de doenças incuráveis. Eu lhe peço um milagre tão simples e você nada. Você resolveria isso fácil, que eu sei. Mas não... fica aí nessa palhaçada, cheio de merdinha. Achando graça em me ver na merda e abusando dos remédios para dormir. Puta que pariu! Comportamento de dar inveja naquele seu inimigo vermelho. Que vergonha, em! Será que é tão difícil assim me ajudar a ter alguém que pelo menos goste um pouquinho de mim, para dividir os dias, o amor e o DNA?

Por falar em DNA, você mandou para cima da gente aquela história de honrar pai e mãe, mas nem se preocupou com quem você nos mandaria para honrar. Manda uns pais que nem nos amam como a eles mesmos e a gente tem que honrar essas criaturas? Foda isso. Mas é aquilo que falo... você leva a minha mãe que era a melhor coisa do mundo para ficar aí com você e deixa a “peça rara” do meu pai para eu honrar?! Muito engraçadinho! Não acha que essa parada está injusta não? Mas tudo bem, disso eu lhe perdôo. Falam que o senhor a tudo perdoa, pois eu vou lhe dar o meu perdão também, porque costumo tentar retribuir, quando alguém me faz algum bem... Por tê-la levado aí para o seu lado, eu lhe perdôo. Isso aqui está foda demais para alguém boa como ela. Ela não merecia mesmo essa merda. Aliás... conta aí para mim (vai! Um segredinho só não custa nada!), esse tal de inferno que falam por aí e que as igrejas evangélicas adoram ficar repetindo, é aqui mesmo não é? Não é possível que exista lugar pior! Cacete!

Já que você nunca me ouve, vê se agora pelo menos me lê!

Jorge.